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"Entre livros nasci. Entre livros me criei. Entre livros me formei. Entre livros me tornei. Enquanto lia o livro, lia-me, a mim, o livro. Hoje não há como separar: o livro sou eu - Bibliotecária por opção, paixão e convicção".

Lemos porque a necessidade de desvendar e questionar o desconhecido é muito forte em nós”

"O universo literário é sempre uma caixinha de surpresas, em que o leitor aos poucos vai recolhendo retalhos. Livros, textos, frases, poemas, enfim, variadas formas de expressão que vão compondo a colcha de retalhos de uma vida entre livros. É o que se propõe".

Inajá Martins de Almeida

assim...

"Quem me dera fossem minhas palavras escritas. Que fossem gravadas num livro, com pena de ferro e com chumbo. Para sempre fossem esculpidas na rocha! (Jó 19:23/24)

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“Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância.”

Fernando Pessoa - Poeta e escritor português (1888 - 1935)

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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

MEMÓRIAS


Texto de Inajá Martins de Almeida

Há uns anos atrás, em 2007, precisamente – enquanto Bibliotecária da rede pública de Bibliotecas, na interiorana cidade paulista de Ribeirão Preto, livros e mais livros passavam por minhas mãos, para serem processados tecnicamente, informatizados e organizados nas estantes, para depois, tornarem-se domínio do público leitor.

Nesse momento, esse contato físico me levava a desbravar o conteúdo, adentrar ao universo do autor, conhecer um pouco de seu cotidiano, sua vida, seus gostos, seus sonhos, suas frustrações.

Fora o caso do escritor siciliano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, que nascido em Palermo em 1896, não nos deixara vasta obra – a mim não importava, posto não pudera encontrar máxima melhor que direcionasse o meu caminhar futuro. 

Em seu livro Os Contos chama-me atenção o fator registro de nossas memórias. Imprescindíveis registros às memórias futuras. 

A partir desse momento, torno minhas suas palavras. Passo a perceber e dar importância maior aos fatos cotidianos, que muitas vezes fortuitos foram ao meu olhar. Volto-me aos registros das cenas presentes com mais assiduidade. Tento, assim,  resgatar o passado que, gradativamente, vem falar de mim.

Percorrendo locais de sua infância, a casa natal, por ele desenhada, busca levar o leitor a um cenário bucólico. A aristocracia em que nascera, a qual lhe outorgara o título de conde, já não lhe era mais permitida, posto perdas várias, mas o registro é marcado por uma narrativa contagiante, que nos remete a uma época e lugar não desconhecidos de nós – a velha Europa.

Quantos de nós não percorremos vales e montanhas, rios e desertos áridos em algum momento de nossas vidas. A diferença é que uns deixaram registros outros não.

Penso até que Lampedusa estivesse num momento de pura amargura ao escrever as palavras iniciais, com uma frase forte: “ao encontrarmo-nos no declínio da vida”. Talvez até estivesse em sua fase derradeira; entretanto, imagino sim que o declínio não fosse o término de sua existência, posto que vem a falecer em 1957 e o livro talvez fora escrito muito antes - quiçá.

Bem, este é o leitor/bibliotecário. Quer adentrar as entrelinhas, os pensamentos do próprio autor. Triste ou não, amargurado pelas adversidades, ou quem sabe, lega-nos uma máxima de uma veracidade inigualável.     

Também imagino o quão benéfico seriam nossas memórias escritas, para que gerações futuras, aquelas que não puderam nos ver, nos conhecer pessoalmente, pudessem saber de nós através das linhas: “o material acumulado... teria valor inestimável”

E adoto a frase, com algumas ressalvas apenas, as quais encabeçam muitos blogs que pudemos criar posteriormente à leitura.

"Ao encontrarmo-nos no declínio da vida , é preciso procurar reunir a maior parte das sensações que perpassaram esse nosso organismo. Poucos conseguirão construir assim uma obra prima (Rousseau, Stendhall, Proust), mas todos deveriam poder preservar, desse modo, algo que sem esse pequeno esforço perderia-se para sempre. Manter um diário ou escrever, em certa idade, as próprias memórias deveria ser obrigação “imposta pelo estado”: o material acumulado após três ou quatro gerações teria valor inestimável. Resolveria muitos problemas psicológicos e históricos que afligem a humanidade. Não existe memória, embora escritas por personagens insignificantes, que não apresentem valores sociais e pitorescos de primeira ordem”. (Tomasi di Lampedusa - Os Contos)




CAMINHOS... LEMBRANÇAS...  MEMÓRIAS...

Caminhos
Caminhos que quisemos trilhar.
Caminhos que forçados fomos trilhar.
Caminhos que ao menos quiséramos trilhar.

Lembranças
Lembranças que fizeram nosso caminhar
Lembranças que forjaram nosso caminhar
Lembranças que não nos deixam caminhar.

Memórias
Memórias a nos encontrar
Memórias a nos encantar
Memórias a nos embalar

Pelos caminhos - caminhamos
Por meio de lembranças - revivemos
Através das memórias - registramos

Pelos caminhos nos encontramos
Pelas lembranças nos avaliamos
Pelas memórias nos escrevemos 

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Giuseppe Tomasi di Lampedusa (Palermo23 de dezembro 1896 — Roma23 de Julho1957) foi um escritor italiano. Entre as suas obras conta-se o romance Il gattopardo (O Leopardo) sobre a decadência da aristocracia siciliana durante o Risorgimento.
A única mudança permitida é aquela sugerida pelo príncipe de Falconeri: tudo deve mudar para que tudo fique como está, frase amplamente divulgada em todo o mundo. 
Tomasi, nascido em Palermo, era filho de Giulio Maria Tomasi, príncipe de Lampedusa, e Beatrice Mastrogiovanni Tasca de Cutò. Tornou-se o único rebento do casal após a morte (por difteria) de sua irmã. continue em....

Um comentário:

M. A. Melo disse...

"Também imagino o quão benéfico seriam nossas memórias escritas, para que gerações futuras, aquelas que não puderam nos ver, nos conhecer pessoalmente, pudessem saber de nós através das linhas: “o material acumulado... teria valor inestimável”."

Um fato importante e belamente escrito! Não é a toa que a escrita deixou para trás a Pré-História :)

Gostei, de coração, do seu blog! Parabéns! Sinta-se a vontade para ler o meu também: www.esculpindome.blogspot.com.br